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Crônicas de Cânticos do Acre - Blog de Renã Leite Pontes


A CADEIRA VAZIA

Por Renã Leite Pontes

 

EU ESPERO O ÔNIBUS. Igual a quantos? E, decentemente, quantos caberão no ônibus? Espero um bom bocado e, finalmente, embarco nele, com o dobro, quem sabe o triplo da lotação desejável... O ônibus sai da estação. Vou em pé, transportado como as feras - enjauladas. É hora do rush. Vou num ônibus com jaula na passagem do cobrador. Ônibus com jaula, sem joules, a diesel. No aperto e sacolejo eu fico pensando: quantos joules de energia serão necessários para (re)mover o descaso que (eu) não mereço?

Curiosamente, há uma cadeira vazia no fim do corredor, na parte de trás do carro. Esgueiro-me até lá, mais movido pela curiosidade, do que pela vontade de sentar-me. Afinal, por que haveria um assento vazio no meio deste arrocho? Por que todos declinariam da cadeira solitária? Na verdade a cadeira está suja de sorvete e, não há ali ninguém ousado(a) o suficiente para sujar os fundilhos e as costas; exceto eu, que necessitava acomodar-me para escrever esta crônica.

Ainda, com relação a cadeira breada, não vi inconveniente em sentar-me, posto que, afinal, estou em pleno deslocamento interescolar, para mover a roda da minha modesta condição de funcionário público (professor de educação física) e, já estou acostumado com a imundice das quadras de esporte escolares. O que, afinal, eu estranharia?  Às vezes a gente fica indignado com as coisas, mas, para quem reclamar?

Sento-me enfim, na beira da cadeira, amenizando um pouco o arrocho; não apenas meu, mas, também, das outras pessoas que acotovelam-se, apertam-se, encostelam-se (o verbo encostelar deveria significar: encostar, roçar costela com costela, com os braços levantados - um termo típico para definir a condição de  passageiro de ônibus).



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h33
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E, o veículo continua seu trajeto pelas ruas. Passa roçando nos automóveis estacionados em ambos os lados da estreita avenida mal planejada. Mal planejada? Não! Sem planejamento algum. Por um momento recordei-me de Dante, o florentino e do seu verso: “... Ali, a inteligência não trabalha...” É! Parece que aqui a inteligência nem visitou, quanto mais trabalhar...

Para melhorar a condição dos passageiros, o ônibus vai lotado de jovens irreverentes, que - indo à escola - chupam sorvetes, mascam chicletes; insultam-se mutuamente e galhofam, gargalhando alguns decibéis acima do limites sonoros compatíveis com o bem-estar humano. Os jovens galhofeiros são estudantes desenfreados, liberais (num mal sentido) e... Inimputáveis. Eu fiquei matutando: ora pois. Estas crianças carentes (porque eu não devo dizer aqui o que me dá vontade de dizer...) são inimputáveis para bagunçar e abusar... Porém - paradoxo dos paradoxos - são

 



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h31
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legitimamente aptas para eleger um político, que poderá vir a subtrair-lhes: a futura oportunidade de emprego, a oportunidade universitária, a oportunidade de uma alternativa de transporte público mais eficiente e menos poluente, enfim, a própria oportunidade de Ser... Um menino divertido destes pode, com seu voto impensado (e prematuro?) prejudicar o próprio filho dele daqui há uns 10, 15 anos... Anular o meu voto e, os de outras pessoas conscientes, que pensam antes de votar e, no fim, optam pela única opção que ainda resta a um eleitor consciente, neste Brasil de meu Deus: votar no menos pior. “Este é um país que vai pra frente [pan ran pam]”. Espere! Espere!  O ônibus chegou ao terminal. Eu tenho que descer! Olho o relógio. Estou atrasado. Hoje demorou! Paradoxo dos paradoxos: os carros atrapalham o trânsito e, de carro demora mais.

 

Por Renã Leite Pontes

 



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h28
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PARA QUE TANTA VIOLÊNCIA?

Por Renã Leite Pontes - Amazônia Brasileira - Acre - Brazil

 

HOJE, SEXTA-FEIRA, 16 DE MAIO DE 2008 é uma data especial. O dia do aniversário da Socorro, minha dileta esposa,  completando comigo, já, doze voltas ao redor do sol.

Acordo cedo. Começo a arrumação pela poda das árvores, afinal, a casa tem que ficar apresentável ante o olhar dos convidados. Naturalmente, também iniciei os preparativos para os comes e bebes com antecedência de homem prevenido, visando agraciar minha companheira com uma belíssima comemoração.

Como 16 de maio cai numa sexta-feira, optamos por fazer a festa no sábado, 17, um dia numerologicamente mais correto, quando as pessoas não estão trabalhando.

O menu deixei por conta da mulher, que escolheu rabada no tucupi com estrogonofe. Que carestia! Um litro de tucupi temperado por dois reais! Eu tive que comprar 20 litros. Imagine o resto!

Ainda bem que no Mercado Novo encontram-se, facilmente, todos os componentes para a cozinha regional, senão o trabalho e a andança seriam ainda maiores.

O que consola a gente é que as "presepadas do mercado" são gratuitas... Lá, cheguei cedo. Comprei todos os ingredientes, mas, faltou a tal da salsa. Eu não ia voltar para

 

 



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h17
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casa faltando um ingrediente tão importante para temperar a rabada, então saí de banca em banca e nada da verdinha (que não é dólar). Parecia música do Alceu Valença: “Pelas ruas [no caso, pelas bancas] que andei, procurei/ Procurei, procurei te encontrar [a salsa].”

Até que, por fim, deparei-me com uma banquinha de verduras, localizada bem no centro da área de trás do Mercado Novo. A feirante, uma mulher, nem delgada nem cheia, atendia tranquilamente a quase ninguém; olhou pra mim com cara de sono e, para alívio meu, respondeu-me que ainda havia dois maços de salsa de resto. Peguei-os de imediato, sem sequer perguntar o preço, demonstrando claramente meu desespero em encontrar a famigerada verdura da terra.

A mulher fez uma leitura da situação e anunciou calmamente o valor exorbitante (o assalto) do produto, como se pronunciasse a coisa mais natural do mundo:

- Moço! São três reais.

Percebendo que havia dado uma mancada, eu - com aquela calma própria de quem tenta esconder a raiva – falei:

- Pra que tanta violência, senhora?

A mulher respondeu calmamente:

- Olha! Quando eu cheguei aqui, esta violência já estava instalada! (Creia-me leitor a mulher falou assim mesmo).



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h13
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Atônito, eu fiquei pensando com meus botões: aquela mulher só podia ser uma cientista estrangeira disfarçada, pesquisando a Amazônia para praticar biopirataria... Ou seria uma filósofa estrangeira travestida de feirante, também, para esconder determinados objetivos escusos?

Na ausência da uma resposta satisfatória, eu paguei a salsa e sai cabisbaixo, temeroso que a mulher cobrasse, também, pelo questionamento. Se dois maçinhos de salsa custaram àquela “fortuna”, imagine o quanto eu não ia ter que pagar por uma resposta daquelas.

Comentei o acontecido com um taxista, em tom de queixa; afirmei maldosamente que os ribeirinhos parecem não conhecer dinheiro, pois, se amarram cinco folhas de chicória ou de couve e alguém lhes pergunta quanto custa, já respondem:

- É um real! - É um real. Parecem não saber pronunciar outra palavra em língua portuguesa.

O taxista contrapôs minha fala dizendo que três reais não valiam nada e que a salsa estava mesmo em falta.

Eu retruquei afirmando que o preço abusivo de qualquer produto, mesmo um simples maço de salsa, nada mais denuncia que “a ponta do iceberg - dos preços”, devido a ausência de uma política de governo para assessoria aos feirantes.



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h12
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Depois da conversa com o taxista que, aliás, é primo meu, voltei para casa com os ingredientes comprados e fomos para a parte do preparo da comida propriamente dita. Ainda bem que outro parente nosso conseguiu terceirizar o preparo da rabada e do estrogonofe, senão íamos ficar em apuros com tanta coisa para providenciar.

Ufa! Enfim conseguimos! O quintal limpo, as mesas arrumadas, a comida pronta... Ficamos esperando os convivas... A noite caiu sobre a cidade trazendo os convidados que chegaram trazendo a noite e... Aquela chuva torrencial. Eu, espantado, sentia-me um espantalho plantado no portão principal - guarda chuva na mão - recebendo e observando os hábitos dos entrantes. Os hábitos... Ah! Hábitos e costumes. Olhava para os convidados e cumprimentava-os, enquanto internamente estudava a etimologia da palavra “moral”, que vem do latim: mores, que significa costumes e “ética” que vem do grego: éthos que, também, significa costumes. Na realidade, meu foco de reflexão centrava-se nos costumes festivos vigentes.

E, as pessoas foram chegando, conforme a chuva passava, conforme o costume (ou hábito?) e foram estacionando os carros; chegando, família por família: cumprimentam, sentam-se, conversam, bebem e esperam a comida.



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h10
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Adiantada a hora. Nada da dona da casa mandar servir os manjares...

Era notório que algum motivo secreto impedia a anfitriã de ordenar o início dos serviços de jantar. Aproximei-me da coitadinha e questionei-a:

- Mulher! A hora está adiantada. Por que você não manda logo servir este jantar?

Ela respondeu baixinho:

- Eu estou esperando os padrinhos de casamento chegar!

Bem, resolvi desligar-me dos problemas de "um dia cheio", para pensar, enquanto todos esperavam a tão ansiada ordem, nos aspectos antropológicos que determinou o hábito guloso da comemoração, com comida, de todo e qualquer acontecimento social: se nasce alguém, comemora-se; se morre alguém, comemora-se; se casa alguém, comemora-se; se alguém faz aniversário, comemora-se. Os comes e bebes reinam triunfalmente em toda parte, desde o Palácio do Governo, até a humilde choupana... Por que será?

A primeira idéia que veio-me  a mente foi a história da maçã. Será que, porque Eva mordeu a maçã, o vulgo coligiu que os eventos em geral devem ser mordidos e ingeridos, quais maçãs? Ou, no caso específico do Brasil, teria ele surgido da tradição paternalista, num Brasil Colônia, onde a nobreza e seus agregados traficavam influência através de faustosos banquetes?



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h09
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A verdade eu não sei. Apenas sei que, psicologicamente, até um plebeu sente-se um poderoso senhor, ao estilo do Brasil República, por ter comida e bebida para dar aos convidados. Da parte dos convidados, creio que deve imperar a sensação insípida de importância, mesmo falsa, por estar perto dum generoso qualquer que pode dar comida e bebida às multidões. Daí o termo comemorar (de comer + morar). Interessante observar que nas festas, os indigentes, os moradores de rua (por não terem onde morar?) não são convidados.

Se aprofundarmos na temática do consumo, na contemporaneidade, por ironia ou força de um terrível paradoxo da política de consumo moderna, alguns anfitriões para darem suas festas, compram tudo fiado (no cartão de crédito), ao contrário dos antigos nobres que esbanjavam dinheiro e fartura a custa da miséria dos quase todos. E, em tratando-se do tema: condição financeira da larga maioria, creio eu, que os convidados até suspeitam do endividamento do coitado, porém refletem consolando-se: - “comendo ou não, o sujeito vai ficar endividado do mesmo jeito” ou “se eu não comer os outros comem...” É. Há Festas e festas, Anfitriões e anfitriões. A situação de um é a condição de todos...

No caso da nossa festa, os padrinhos de casamento não vieram mesmo. A parte do jantar propriamente dito atrasou uma hora por causa deles. Aí, diante duma destas, eu não posso parar de pensar. Começo pensando basicão: Por que os padrinhos não vieram? Em seguida, minha mente migra para formas mais complexas de elucubrações. Haveriam acaso os padrinhos transformado-se em revolucionários radicais, rompendo com todas as formas de poder e suas mais diversas manifestações; uma vez que, promover um jantar de aniversário da esposa é uma forma de poder gastar ou de poder endividar-se? Ou será que, por motivos de evolução puramente existencial, os ditos padrinhos teriam feito boicote a festa, objetivando promover nos anfitriões, reflexões antropológicas a respeito das formas históricas (e patéticas) de comemoração (com comida) de quaisquer datas relevantes?



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h08
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Refleti ainda um pouco mais a respeito dos motivos que levariam um padrinho de casamento a faltar à festa de aniversário da afilhada, que, por coincidência, também aniversaria no mesmo dia dele.

É! A vida é um filme, no qual o mocinho morre no final...

Era noite alta. Depois da festa. Todos convidados já haviam saído... Minha dileta esposa aproxima-se de mim e comenta:

- A festa foi tão legal!

- Claro! Claro! - Respondi com um sorriso bem tonificado. Mas, por trás do meu sorriso (original para ela), eu imaginei-me despedindo-me dos convidados e falando:

Boa noite! Obrigado por terem vindo! Bem, eu queria dividir com vocês a imundice e o sabor amargo das festas, depois que os convidados saem.

Neste particular, os padrinhos de casamento seriam poupados do comentário da despedida imaginária.

Como já estamos nos finalmente... Só mais uma interogaçãozinha não vai molestar a quem já agüentou até aqui:

- Será que os padrinhos não vieram por que não queriam sujar nada?

São tantas emoções”. Como decifrar o enigma dos padrinhos inassíduos? Vamos esperar as justificativas?

 

Por Renã Leite Pontes

 



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 18h06
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DA COR DE PÓRFIRO

Por Renã Leite Pontes

 

Há tempos, não encontrava-o. Estava bem mais delgado que de costume. Trazia a face rija dos homens sérios. Destacava-se ainda no seu esqueleto, os platônicos ombros desempenados, mais por força da genética, do que de exercícios físicos pontuais. Nos olhos lívidos, por trás dos óculos, li a seguinte inscrição: Aqui brilham os olhos de um homem digno de confiança. A feição suave denunciava a segurança própria daqueles que foram capazes de, com as mãos, moldar o próprio destino, aliada a uma reconhecível serenidade, filha da maturidade... Sua expressão corporal denotava inteligência, forjada na frágua de muita luta e estudos qualitativos constantes. Divisei o vulto do homem empurrando o carrinho de supermercado, dentro do Araújo da Isaura Parente.

Por pouco não lhe deixei incomodado... Devido a certa coisa que quase falei, depois de uma leitura que fiz de sua fisionomia:

- É! O senhor tem passado alguns sofrimentos!

Mas, preferi poupar-lhe do comentário...

Vai ver ele sequer recorda-se de mim - pensei de mim para mim. 

Não é para menos. Há tempo não converso com meu antigo Mestre. Desde a época em que foi meu professor num curso de Pós-Graduação na UFAC em 2003.

Então, achei mais apropriado dizer-lhe:



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h58
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- O senhor, quem é? 

- José Cláudio Mota Porfiro - respondeu.

Como se eu não o conhecesse... De priscas e longínquas datas. Como se eu não lesse, amiúde, suas crônicas, no jornal.

- Certo! Certo! Meu antigo professor - exclamei -

E o livro que o senhor acabou de publicar? - acrescentei -

Ele parou um pouco e lembrou-se:

 - Tenho um exemplar lá no carro.

 - Vamos buscá-lo? – sugeri.

Deixamos os carrinhos de supermercado próximos um do outro e sob guarda da esposa dele e fomos buscar o livro. Quando entregou-me a coletânea de crônicas acreanas, um livro de capa verde claro, bem produzido. Tomei-o nas mãos, olhei o dorso, o anverso. Afastei-o um pouco para ver a perspectiva. Abri a contra capa. Observei, então, a capa e de pronto, exclamei, enquanto divisava a arte produzida por Danilo de S'Acre:

- O Homem Áureo, de Leonardo da Vinci, que morreu de favores no Castelo de Coux, na Franca, na corte do Rei Francisco I. Tal qual Maquiavel, que, também, morreu na miséria, depois de ser escada para oportunistas e fazer todo tipo de teses para guerras de conquista...



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h56
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O velho Mestre guardou um profundo silêncio cinzento acastanhado, da cor da rocha pórfiro. Ah! Aquele silêncio de pórfiro... Vos direi: não é um silêncio facilmente compreensível! É um silêncio, irmão do escuro guiomarense da minha infância que não volta mais. Um escuro que causou-me terríveis medos... Escuro existencial e de temor do futuro, incognoscível escuro... Profundo, enigmático, como um silêncio profundo de pórfiro.

Um pórfiro rijo por natureza, deveras semelhante ao Porfiro que autografou-me o livro JANELAS DO TEMPO. Bem na primeira página escreveu a dedicatória:

Ao companheiro Renã, poeta e professor, igual a mim.

No vai-e-vem dos transeuntes do supermercado, sustentando o livro na mão, perguntei:

- Quem lhe ajudou a publicar seu livro, Mestre?

- Publiquei-o através de favores de bons amigos- falou o homem em tom de deixa.

- Quanto é o livro?

- São trinta reais! – respondeu.

Puxei a carteira e paguei com uma nota de vinte e outra de dez reais; não sem antes agradecer a dedicatória e lhe parabenizar pela arte de fazer arte – a Arte das crônicas.

Ainda entabulamos algumas conversações sobre democracia e política. Logo após, despedimos-nos.



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h55
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Nesta noite, o livro do Doutor Cláudio Porfiro foi dormir sobre a obra 200 Crônicas Escolhidas de Rubem Braga, que estava em cima da imperdível obra acreana, Motivos de Mulher na Amazônia da Doutora Margarete Edul Prado e ladeado pelos livros Contos da Floresta do poeta Francisco Aquino (Tico) e De Seringueiro a Sindicalista de Francisco Figueiredo.

Recordo que por estes dias eu estava conversando com um professor da Escola José Rodrigues Leite, onde trabalho, sobre o preconceito que gira em torno do nome de Bocage; pelo que fiz o seguinte comentário:

- Veja! Professor. Eu também conhecia o poeta como pornográfico, através de comentários de leigos, porém, depois de conhecer a obra dele, vos direi: em matéria de sonetos, Camões foi suplantado por seu discípulo, embora que, em tratando-se de oitavas heróicas decassílabicas, não há em língua portuguesa quem haja suplantado Camões.

Voltando para o que estávamos falando. Pois é! Tudo é uma questão de gosto e opinião. Na minha modesta opinião acreana, as crônicas de Mota Porfiro têm mais sentido prático-social e são mais deliciosas de ler, do que as de Rubem Braga...

O curioso da questão, é que o meu interlocutor concordou comigo em gênero, número e grau

Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h54
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A primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi ler o prefácio do livro, por Márcio Chocorosqui e a crônica Beleza Rara, onde o consagrado cronista acreano descreve a beleza incandescente de Maria Cláudia Barreto.

Lá, no livro, o autor diz que a nossa Misse Beleza Pura é a mulher mais linda do mundo, em sua opinião.

Eu, bairrista que sou ainda acrescento mais tinta ao assunto em pauta, afirmando:

- Além de mais bonita, ela é a mulher mais cheirosa do mundo!

Vamos! Vamos! Eu estou esperando alguém perguntar:

- Você já cheirou a Cláudia?

E, eu responderei:

-Não! Mas, pela televisão, eu coligi que ela é a mais cheirosa das mulheres.

E, se alguém questionar o lógico:

- Como é que você diz que uma mulher é cheirosa, se você nunca cheirou-a?

Só para encerrar a pendenga, eu responderei:

- Nunca cheirei não, mas, se você a trouxer aqui, eu hei de cheirá-la!

 

 

 

 



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h53
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PORQUE NÃO SÃO GENTE DE FAMÍLIA!

(Por Renã Leite Pontes - Conto fictício a respeito da corrupção policial no Brasil).

Como se já não bastasse a falta de segurança, os pedágios e os buracos das estradas brasileiras, enquanto retorno para o contribuinte, de tanta impostalheira.

Enfim, chegaram as férias de dezembro. Carlos e o filho Ítalo de 15 anos viajaram de carro para o Rio de Janeiro. Antes iam visitar alguns parentes e amigos em vários estados do Brasil. O pai na direção do veículo e o filho na direção do "guia rodoviário".

Saíram do Acre. Viajavam de dia e, assim que caía a noite, pernoitavam em algum hotel de beira de estrada. No terceiro dia pela manhã passaram em um trecho da BR 364 conhecido como "Trevo de Cuiabá", quando foram abordados por uma guarnição policial militar.

Na realidade, o veículo já havia passado pela patrulha, quando um soldado fez soar tardiamente seu apito, um silvo breve. Mesmo sem entender o que o policial queria, Carlos encostou o veículo no meio fio e aguardou o agente da lei, que aproximando-se do veículo pelo lado do motorista, abruptamente ordenou:

- Você. Dê marcha à ré e entre aqui nesta ruazinha marginal!

O condutor do veículo, mesmo constrangido obedeceu e arriscou-se, transitando com o veículo em marcha ré na BR 364 por uns quinze metros na curva do trevo. Que perigo! Ufa! A manobra perigosíssima exigida pelo policial era suficiente pra deixar qualquer pessoa nervosa, mas Carlos manteve-se calmo. Pelo menos tentou...

Depois da ré, o carro parado. O militar, sem sequer apresentar-se ou realizar qualquer outro procedimento básico protocolar, ordenou ao motorista que saísse do carro. E, ao ser atendido pelo condutor do veículo, imperativamente, complementa sua fala:

- Me dê os documentos do veículo e sua habilitação!

Carlos, de pronto, atendeu a ordem policial entregando os documentos do veículo e sua CNH.

O policial olhava e analisava os documentos, enquanto dava voltas no veículo. Olhava a placa dianteira e voltava para olhar a traseira. Numa dessas voltas, ao observar a cadeira do passageiro perguntou para o viajante:



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h29
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- E este menino aí, é seu filho?

- É! - Respondeu Carlos.

- Cadê os documentos dele? - Perguntou o policial.

Carlos abriu o porta-luvas do carro, tirou de lá os documentos da criança e entregou-os para o agente da lei.

O policial olhou os documentos. Como tudo encontrava-se em ordem, conteve-se, porém, saiu procurando defeito em tudo. Pediu, inquiriu, remexeu, até cismar com a placa do veículo:

- É! Esta placa está com os números apagados! Parece que foi lixada para não ser reconhecida pelo radar!

Que coisa absurda - pensou Carlos - E, na seqüência, disse para o policial que a placa estava perfeitamente legível. O policial inventou um monte de acusações e verborréias absurdas, sempre afirmando aleivosamente que o motorista agira de má fé.

A atitude do policial era nervosa e autoritária. Chegava a ser agressiva. A esta altura Carlos já havia entendido que o policial estava criando caso com ele. Por quê?

Também, já havia encomendado a Deus - rezando baixinho - um milagre que os tirasse daquele sufoco. Foi quando o policial falou:

- Espere aqui que eu vou falar com o tenente!

O pobre viajante encheu-se de esperanças. Graças a Deus! - Pensou de si para si - O tenente vai ver que a placa está normal e vai liberar-me.

E o soldado só retornou depois de uns quarenta e cinco minutos... Trocou algumas palavras amistosas, justo com Ítalo, para em seguida perguntar:

- Para onde vocês estão indo garoto?

- Estamos de férias e - respondeu Ítalo inocentemente - vamos visitar alguns parentes no Rio de Janeiro.

- Certo! Certo! - exclamou o policial.

Foi depois da resposta equivocada de Ítalo, que o policial teve certeza que aquele casal seria presa fácil; sentiu-os vulneráveis...

 



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h26
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Curiosamente, o policial continua retendo os documentos pessoais e do veículo de Carlos, sempre reafirmando a suposta ilegibilidade da placa...

A estas alturas, Carlos já estava sentindo-se cansado e enjoado. Que azar! Logo comigo! O tempo foi passando naquele calor insuportável e nada do tenente vir ao menos dar uma olhadinha na placa do carro para julgar o caso do pobre motorista que já estava perdendo a manhã inteira a mercê da boa vontade do magnífico serviço público brasileiro. Que mela! Ambos os viajantes esperam e esperam... O filho sentado no banco do motorista, a porta do passageiro aberta e o pobre pai, em pé, escorado na lateral do veículo.

De repente, pai e filho observam que o motorista de um caminhão, que estava estacionado um pouco mais acima, - desde que pararam - fala com um sargento, mete a mão no bolso, separa umas cédulas e entrega para o policial. Depois, entra no carro, dá partida no motor, arranca e vai-se embora.

Aí o cenário começou a receber algumas pinceladas lívidas, delineadoras e, finalmente, foi tomando forma concreta... Carlos começou conjecturar:

Por que o oficial não saía do seu "quiosque"? Por que tantas perguntas? Por que tanta maçada? Matutando e esperando, o motorista já havia tirado algumas conclusões, que, mais tarde foram confirmadas. Para infelicidade de Carlos, infelizmente, o distinto oficial, também, fazia parte do esquema e a estratégia era "matar no cansaço" e... No sol.

Cansado de esperar, Ítalo sai do carro e fala baixinho com o pai:

- Pai! Eu acho que eles estão querendo um dinheiro, igual o homem do caminhão. Dá logo pai! Pra gente poder ir embora!

Ao longe, Carlos divisou o oficial conversando em roda com a guarnição e responde ao menino:

- É não filho! Eu acho que o motorista deve ter pagado algum dinheiro que havia pegado emprestado anteriormente.

Demora mais um tempo e Ítalo pergunta:

- Pai! É comum demorar tanto pra ver os documentos?

- Claro que não! Filho! Você é acostumado a andar comigo no carro - falou o pai já um pouco sem paciência - Você já viu uma coisa destas lá no Acre?

Pelo que Ítalo responde:

- É mesmo, né pai! Lá no Acre a PM olha os documentos, bem ligeiro!



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h25
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Carlos já foi cortando o assunto com um "pois é!", "pois é!". Não queria que os policiais ouvissem a conversa. Poderia complicar mais...

E tome mais chá de demora. Ali o tempo parecia haver parado....

Depois de mais uma boa maçada, até que enfim, o bendito soldado que fez a abordagem volta a falar com Carlos, só para renovar instrução:

- Nós estamos chegando a conclusão do seu caso. Fique no carro! Não saia daí!

Pai e filho ficam aguardando no veículo, conforme as orientações do soldado. Os policiais conversam entre si um pouco distante das... Vítimas...

O tempo continua passando pachorrento naquele sol de rachar o crânio. Até que, enfim, um outro soldado aproxima-se do automóvel de Carlos intimando-o a entrar no "cubículo-escritório" para falar particularmente com o tenente. O motorista entra no escritório. O oficial, um sujeito novo, está sentado atrás de uma velha escrivaninha desproporcional ao seu tamanho, ajeita-se na cadeira e - sem um bom dia! Sequer - vai direto ao assunto:

- Olhe senhor! Seu veículo está irregular!

- Carlos respira fundo. Observa Ítalo lá fora por uma janelinha de vidro que dá visão para o pátio. Ainda bem que seu filho não estava vendo aquela cena degradante... Esforça-se para manter a calma, pergunta:

- Bem! O que eu posso fazer tenente?

Assim como que fala com um imbecil, um ignorante completo, o oficial responde:

- Bom! A sua infração é considerada média. São 80 UFIRs, que dá 85 reais e 12 centavos e - no seu caso - mais a retenção do veículo. Como o senhor está viajando com seu filho e está distante do posto fiscal, pode deixar o dinheiro comigo que eu pago a multa pro senhor. Só que aqui eu não tenho troco. O senhor vai ter que deixar 100 reais!

Sem ter o que fazer, o pobre motorista, cidadão, como tantos outros cidadãos extorquidos neste Brasil brasileiro, não teve outra alternativa a não ser "pagar" a "multa" meio escondidinho, para o filho não ver aquela cena antieducativa e sair dali com aquele mal gosto de corrupção na boca. Senão não saía...

Ao sair do escritório, Carlos ainda teve que engolir um metafórico insulto, em alto e bom tom, de um jovem soldado que conversava folgadamente



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h24
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com um dos seus pareceiros, ambos, muito bem acomodados na sombra de um arvoredo, sentados em cadeiras plásticas brancas, com encosto para os braços:

- É! Se o coelhinho saiu da gaiola é porque deve ter cumprido com os atributos...

Carlos ainda lembrou-se que necessitava de uma informação atinente a viagem, porém, pensou de si para si:

É melhor pedir informação para bandido do que para um tipo de polícia desta!

Voltaram a pegar a estrada... A partir daí tudo transcorreu as mil maravilhas. Até que, dias depois, pai e filho passaram por um trevo depois de uma famosa e grande cidade universitária nordestina, em direção a certa cidade et cetera...

Ao passarem por aquele trecho, um policial militar vestindo um uniforme de estranha cor cinzento avermelhada, depois de verificar a regularidade de toda a documentação atinente ao veículo e condutor, exclama - na maior "cara de pau":

- E aí meu chefe. Não tem nada pra nós não?

Ao ouvir a corrupção desvelada, que o pai tanto tentou esconder do filho, o coitado do condutor sente como se apodrecessem as suas carnes, porém, temendo represálias por parte dos policiais corruptos, responde fingindo uma diplomacia falsa:

- Agora eu estou indo sem dinheiro, amigo! No retorno eu trago um negócio aí pra vocês. Tá bom?

O policial respondeu que sim, com aquele sorriso insípido e sem graça, próprio dos corruptos nojentos.

Ao saírem da barreira e da frente dos policiais, Ítalo questiona:

- Pai! Nós vamos dar dinheiro pra eles na volta? Eu acho que isto está errado?

Acuado e dividido entre os valores morais ideais e o mundo real da corrupção brasileira, o pobre pai responde:

- Não! Filho. Nós não vamos voltar por aqui. Lá da casa do tio, nós vamos por outra estrada. Só respondi assim para eles não ficarem marcando a gente, mas peço a Deus que jamais na vida meus olhos voltem a ver estes



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h23
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sujeitos indignos de serem chamados de policiais.

- Ah, Bem! - exclama Ítalo - acrescentando um questionamento:

- Pai! Mas, é correto ficar mentindo para as pessoas?

O pai detém-se um instante procurando as palavras para abordar tão delicado assunto e complementa a fala:

- Hum! Filho! Eu não menti para os policiais. O que fiz foi defender a nós dois de problemas que já vivenciamos lá no "Trevo de Cuiabá". Bem! Filho! Na verdade, aquela sua resposta para o policial, foi o que nos causou a maioria daqueles contratempos. Eu não estou brigando com você, apenas ensinando-o.

A criança cai no choro, enquanto afirma questionando:

- Eu não fiz nada! O que eu fiz de errado?

O pai tenta acalmar o filho com explicações sobre a situação, porém complementa:

- Filho! Você falou para o policial que nos íamos para o Rio de Janeiro. Você deveria ter dito que nós íamos para o primeiro município depois dali, um lugar perto. Era só olhar o "Guia Rodoviário" que estava no seu colo ou perguntar para mim, ficar calado ou dizer que não sabia...

Após ouvir o "comentário-censura" do pai, o menino chora copiosamente.

O pai espera a criança acalmar-se e complementa:

-Ítalo! É importante esta informação para você. O que ocorre nas estradas brasileiras é que os policiais corruptos preferem afanar condutores - de carros populares - desavisados e desprotegidos, que transitam distantes da sua "origem-destino". Eu não falei com objetivo de censurar você!

- É que eu estou me sentindo culpado! - explica a criança.

O pai dá umas pamadinhas de leve na perna de Ítalo é complementa:

- Mas, você não deve sentir-se culpado! Como você pode ser culpado da desonestidade daqueles policiais? Acaso a pessoa que foi roubada é culpada do roubo e é inocente o ladrão? Aposto que eles ainda estão dando risada de nós. A gente só tem que aprender a defender-se deles. É! Filho! O Brasil é assim mesmo! Fazer o que? Reclamar para quem?

Viajaram mais alguns dias. No outro, saíram logo cedo. Poucas horas



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h20
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de estrada, o motorista teve que desacelerar o veículo até a velocidade de

quarenta quilômetros por hora, para passar por outra barreira policial. O carro é parado. E tome mais "pedido de ajuda":

- E aí meu chefe. Não tem nada pra nós não?

- Vou receber um dinheiro lá em... - responde Carlos - E, na volta, o teu tá seguro, certo?

- Certo! Certo! – balbucia o funcionário público corrupto.

E a viagem prosseguiu assim... O pedido de propina repetiu-se em quase todas as barreiras naquele trecho. Nem a criança eles respeitavam. "Sempre e amiúde" os "agentes da lei" repetiam o mesmo coro:

- E aí meu chefe. Não tem nada pra nós não?

E o pobre pai respondia sempre o mesmo refrão:

- Na volta chefe! Na volta! Na volta!

Carlos prometia sabendo que, se houvesse volta, eles iriam cobrar mesmo...

Cansaço e estrada, pai e filho chegam a uma das suas "cidades-destino", e o tio de Carlos, um militar do Exército Brasileiro, olha alegremente para o sobrinho que chega e pergunta:

- Tudo bem, sobrinho! Tem muitos perigos na viagem do Acre até aqui?

Carlos olha o tio e - mais em tom de ironia do que de desabafo – responde:

- Tirando a polícia, não há perigo algum!

O tio correspondeu a fala com um sorriso.

Depois de uns dias na casa do parente, nossos viajantes pegam novamente e estrada. Vão para Fortaleza, depois voltam para Belo Horizonte e, depois, seguem viajem para Ribeirão Preto. Partindo de Ribeirão Preto, após doze horas de viagem, por fim, já estavam entrando no município do Rio de Janeiro e transitando pela famosa Avenida Brasil (entrada e saída da cidade). Ao passar em frente ao Centro de Tratamento de Esgoto do Rio de Janeiro - CTERJ, lá pelo número dez mil, o menino questiona:

- Pai! Todos os policiais são assim, corruptos, como aqueles que vimos?

O pai pensa um pouco e responde - preocupado com os traumas que



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h18
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poderiam ter ficado na criança:

- Claro que não! Filho. Nem todos! Apenas uma pequena minoria que mancham o nome de toda uma corporação...

O menino insiste:

- Há algum lugar no Brasil onde não há policiais corruptos?

O pai pensa e responde:

- Justiça seja feita! Tirando o Acre, pode ser que haja mais algum...

Curioso o filho, preocupado o pai com a formação moral da criança, Ítalo persiste ainda no assunto:

- Pai! E por que eles agem assim? É por que ganham pouco?

- Por quê? Porque não são gente de família! - exclama o pai em tom de encerramento de conversa.

E... Depois de um mês, de mar e férias naquele maravilhoso município niteroiense, o pai vende o carro e faz a viagem de retorno ao Acre com o filho em ônibus tipo leito, por medo da polícia...

Paradoxo dos paradoxos:

- A polícia foi a causa do sufoco e... Os bandidos não incomodaram.

 

Por Renã Leite Pontes



Escrito por canticos do acre Blog de Renã às 17h13
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